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Batayporã manda tirar de prova do 4º ano textos com violência doméstica e casamento forçado

Batayporã manda tirar de prova do 4º ano textos com violência doméstica e casamento forçado

A Secretaria Municipal de Educação, Cultura, Esporte e Lazer (Secel) de Batayporã pediu à empresa responsável pelo material de avaliação diagnóstica do município a retirada de dois textos que seriam aplicados a turmas do 4º ano do ensino fundamental. Segundo a pasta, as histórias reproduzem violência doméstica, coação e submissão feminina sem qualquer tratamento crítico.

Os textos apontados são “A Mulher Preguiçosa”, que retrata violência doméstica e coação, e “A Princesa e o Sapo”, na versão em que a personagem não tem autonomia e é levada a um casamento forçado.

A avaliação foi produzida por uma empresa de São Paulo contratada pelo município para fornecer o material diagnóstico da rede.

O que a secretaria apontou

A justificativa da Secel vai além da presença do tema. O problema, segundo o ofício, está em como a narrativa se encerra.

A pasta destacou que a história conclui que, depois do episódio, o casal viveu feliz — mesmo tendo retratado coação mediante ameaça. É esse desfecho, e não a menção ao conflito em si, que a secretaria considera problemático: ele apresenta a violência como etapa normal de uma relação que dá certo.

No documento, a secretaria afirma que os textos podem transmitir uma visão equivocada sobre a violência contra a mulher e sobre os papéis atribuídos a homens e mulheres, além de reforçar ideias de violência, submissão e desigualdade.

O que foi pedido à empresa

A Secel formalizou três pedidos:

  1. retirada imediata dos dois textos do material de avaliação;
  2. revisão dos materiais futuros, evitando temas sensíveis sem o devido tratamento pedagógico;
  3. apresentação presencial da empresa aos estudantes que já tiveram contato com o conteúdo.

O prazo dado para resposta é de três dias úteis contados a partir da publicação do ofício, feita em 12 de agosto de 2026.

O terceiro pedido é o mais incomum dos três e merece nota. Não se trata apenas de trocar uma folha: a secretaria quer que a empresa vá até a sala explicar aos alunos o que houve. É um reconhecimento de que o material já circulou e de que retirar da prova não desfaz a leitura.

O que é a avaliação diagnóstica

Para quem não acompanha o vocabulário da rede, vale o contexto.

A avaliação diagnóstica é aplicada em geral no início do ano ou de um ciclo e não vale nota. Ela serve para o professor mapear o que a turma já domina — leitura, interpretação, operações — e ajustar o planejamento a partir dali. Justamente por não valer nota, costuma receber menos escrutínio do que provas oficiais.

É prática comum entre municípios pequenos contratar empresas especializadas para produzir esse material, em vez de montá-lo internamente. A rede ganha padronização e comparabilidade entre turmas; em contrapartida, o conteúdo passa a ser escrito por gente que não conhece a escola, e a curadoria depende de uma etapa de revisão local que nem sempre acontece antes da impressão.

O caso de Batayporã é exatamente esse ponto cego aparecendo: o texto chegou pronto, e a filtragem só ocorreu depois.

Por que isso interessa além de Batayporã

Município de pouco mais de 10 mil habitantes na região do Vale do Ivinhema, Batayporã tem uma rede municipal de porte modesto — e é aí que está a relevância da história para outras cidades do interior de Mato Grosso do Sul.

A mesma lógica de contratação se repete em dezenas de municípios pequenos do estado, muitas vezes com os mesmos fornecedores. Um texto que passou despercebido em uma rede tende a estar circulando em outras.

Há também um aspecto de procedimento que vale registrar: a secretaria identificou, formalizou por ofício, deu prazo e tornou público. Esse é o caminho previsto — e é diferente de recolher o material em silêncio, que é o desfecho mais comum quando esse tipo de problema aparece.

Contos tradicionais em sala: o problema não é o tema

Um mal-entendido comum precisa ser desfeito, porque ele costuma travar esse tipo de discussão logo no começo.

Contos populares e clássicos infantis estão cheios de violência, abandono e coerção — é da natureza do gênero. Chapeuzinho, João e Maria, Barba Azul: nenhum deles é gentil. E há décadas se trabalha com esse material em sala de aula sem qualquer problema, porque a literatura é justamente um lugar seguro para encontrar o difícil.

A diferença está no tratamento. Um texto que apresenta a coerção e permite discuti-la é ferramenta pedagógica. Um texto que apresenta a coerção e a encerra com um final feliz, sem nenhuma mediação, entrega ao aluno de nove anos uma conclusão pronta: aquilo é normal e dá certo.

É essa a distinção que o ofício da Secel faz. Não se pediu para tirar o tema da escola — pediu-se para tirar o desfecho que naturaliza.

E há um agravante de contexto: a avaliação diagnóstica não é aula. Não existe roda de conversa, não existe professor mediando, não existe pergunta aberta. O aluno lê sozinho, em silêncio, e responde questões de interpretação. É o formato com menos espaço pedagógico possível para um conteúdo que exige exatamente o contrário.

O que a família pode fazer

Para quem tem filho na rede e quer acompanhar, os caminhos são simples e não dependem de conhecer ninguém na prefeitura:

  • peça para ver o material. Avaliação diagnóstica não é sigilosa; a escola pode mostrar o caderno aplicado;
  • leve à direção primeiro. A maioria das questões se resolve na própria unidade, e é o canal mais rápido;
  • se não resolver, procure a secretaria municipal de educação, que é quem contrata o fornecedor e tem poder sobre o contrato;
  • acione o Conselho Municipal de Educação, órgão colegiado com representação da comunidade e atribuição de acompanhar a política educacional do município.

O caso de Batayporã, aliás, começou desse jeito: alguém leu com atenção antes de a prova ser aplicada.

O prazo em curso

O prazo de três dias úteis dado à empresa se encerra nos próximos dias. Até a publicação deste texto, não havia informação pública sobre o cumprimento das três exigências — retirada dos textos, revisão dos materiais futuros e apresentação presencial aos estudantes.

O desfecho vale acompanhar não só em Batayporã. Ele define, na prática, quanto poder uma rede municipal pequena tem sobre o conteúdo que compra pronto — e essa é uma pergunta que interessa a boa parte dos municípios do interior de Mato Grosso do Sul.

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