A área atingida pelo fogo no Pantanal sul-mato-grossense cresceu 663,4% entre 1º de janeiro e 4 de agosto deste ano, na comparação com o mesmo período de 2025. O dado é do segundo Informativo sobre Incêndios Florestais divulgado pelo Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso do Sul (CBMMS).
O problema é que esse salto aconteceu antes do período historicamente mais crítico. Agosto, setembro e outubro são os meses em que o fogo costuma se espalhar com mais facilidade no estado — e é justamente essa janela que a previsão sazonal cobre agora.
As regiões que entram em alerta alto
O informativo classifica o risco por região. Três delas estão em alerta alto para ocorrência de fogo:
- Região Pantaneira
- Região Norte
- Região Nordeste
O restante do estado se distribui entre os níveis de atenção e alerta na previsão para agosto, setembro e outubro. Na prática, não há região de MS fora do radar nesta temporada.
Mais de 600 bombeiros militares já atuaram em ações de prevenção e combate a incêndios no estado neste ano.
Por que 663% não é apenas um número grande
Vale uma ressalva honesta na leitura desse percentual. Toda comparação anual depende do ano usado como base — e 2025 foi, no Pantanal, um ano de comportamento diferente do atual em chuva e umidade. Quando a base é baixa, qualquer aumento vira um número de três dígitos.
Isso não desmancha o alerta; muda a pergunta. O que importa não é se o percentual seria menor com outra base de comparação, e sim que o fogo voltou a se instalar antes do período crítico, com o terreno seco e a previsão sazonal apontando para mais três meses de risco elevado. É esse conjunto — e não o número isolado — que colocou três regiões em alerta alto.
O Cerrado caiu 44,5% — e isso não é motivo para relaxar
No mesmo período comparativo, a área queimada do Cerrado sul-mato-grossense caiu 44,5%. É um número bom, mas com prazo de validade curto.
O pico da seca no Cerrado ocorre entre agosto e setembro. É quando a vegetação atinge o teor de umidade mais baixo do ano e passa a se comportar como material inflamável: uma faísca que em março se apagaria sozinha, em setembro pode virar uma frente de fogo de quilômetros em poucas horas.
Em outras palavras, o Cerrado começou o ano bem, mas está entrando agora na sua fase mais perigosa. A conta ainda não fechou.
O tempo dos próximos dias explica a preocupação
As condições registradas no início de agosto ajudam a entender o tamanho do alerta: umidade relativa entre 15% e 30% nas regiões Norte, Nordeste, Noroeste e Bolsão, com temperaturas chegando a 38°C.
Com umidade nessa faixa e vento, a velocidade de propagação de um incêndio muda de patamar. É por isso que os bombeiros trabalham com previsão sazonal e não apenas com o boletim do dia.
O que está proibido agora
A queima controlada segue suspensa em todo o estado durante o período crítico. Isso vale para limpeza de pasto, restos de roçada, resíduos de lavoura e o velho hábito de "queimar o mato do fundo".
Não se trata de burocracia. A imensa maioria dos incêndios florestais no estado tem origem humana — e boa parte começa como um fogo que alguém achou que tinha sob controle.
O que fazer se você vir fogo
- Ligue 193. É o número do Corpo de Bombeiros e vale para qualquer município. Informe ponto de referência, se há vento, para onde o fogo está se movendo e se existem casas, animais ou postes por perto.
- Não tente combater sozinho uma frente de fogo em vegetação alta ou com vento. Fogo em campo seco muda de direção mais rápido do que uma pessoa consegue correr.
- Afaste-se pelo lado contrário ao vento, nunca subindo o morro — o fogo sobe mais rápido do que desce.
- Se a fumaça chegar à sua rua, feche janelas, evite esforço físico ao ar livre e tire crianças e idosos da exposição direta.
O que fazer antes que o fogo apareça
Para quem mora na zona rural, em chácara ou na borda dos distritos, a prevenção que funciona é chata e simples:
- Faça e mantenha o aceiro — a faixa limpa, sem vegetação, ao redor de casas, currais, cercas e paióis. Aceiro estreito não segura fogo de campo em dia de vento.
- Retire material combustível acumulado: folhas secas em calhas, restos de poda encostados na cerca, capim alto colado na parede.
- Não jogue bituca de cigarro pela janela do carro. Em estrada vicinal com capim seco na margem, é o suficiente.
- Não solte balões. É crime, e cada balão que cai em agosto tem chance real de virar ocorrência.
- Cuidado com vidro e lixo abandonado em terreno baldio: caco de garrafa concentra luz solar e já iniciou incêndio em mais de um município do estado.
- Combine com o vizinho. Aceiro só funciona de verdade quando a propriedade ao lado também tem o dela.
O que muda para o produtor rural
Quem depende de limpeza de área precisa reorganizar o calendário: com a queima controlada suspensa, o caminho é o manejo mecânico ou o adiamento para depois do fim do período crítico, quando a autorização voltar a ser emitida.
Vale ainda revisar o estado das cercas, dos bebedouros e das rotas de saída do gado. Em incêndio de campo, o prejuízo maior raramente é o pasto queimado — é o animal que ficou preso entre a cerca e a frente de fogo.
E para quem mora na cidade?
A ideia de que incêndio florestal é problema de quem mora na roça não se sustenta em MS. Boa parte das cidades do interior tem terreno baldio com capim alto dentro do perímetro urbano, fundo de quintal encostado em área de vegetação e distritos onde a última rua já é o começo do pasto.
Três providências valem para quem está na área urbana:
- Mantenha limpo o terreno de que você é responsável. Em vários municípios, a limpeza de lote vago é obrigação do proprietário e há previsão de multa por descumprimento — vale confirmar a regra na prefeitura da sua cidade.
- Denuncie terreno abandonado com mato alto à prefeitura antes que ele pegue fogo, não depois. É o pedido que os bombeiros mais repetem em agosto.
- Não queime lixo no quintal. Além de proibido no período crítico, é a origem mais banal de ocorrência urbana nessa época.
Como acompanhar
O CBMMS publica os informativos sobre incêndios florestais com a previsão por região ao longo da temporada. É o documento mais útil para quem mora no interior planejar as próximas semanas — e a leitura leva menos tempo do que a fila de uma ocorrência.
Nas próximas semanas, o que vai dizer se o estado escapa de uma temporada ruim não é o número de aeronaves ou de brigadistas mobilizados. É quanta ignição simplesmente não acontecer.
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