O Instituto Nacional de Meteorologia emitiu alerta laranja de baixa umidade do ar para 15 municípios de Mato Grosso do Sul, com índices previstos entre 12% e 20%. É o segundo nível na escala de perigo do órgão — e o patamar em que o ar seco deixa de ser desconforto e passa a ser risco.
As cidades sob alerta ficam nas regiões norte, leste e do Bolsão: Água Clara, Alcinópolis, Camapuã, Cassilândia, Chapadão do Sul, Costa Rica, Coxim, Figueirão, Inocência, Paraíso das Águas, Paranaíba, Pedro Gomes, São Gabriel do Oeste, Sonora e Três Lagoas.
O aviso vem acompanhado de calor. As máximas devem oscilar entre 36°C e 40°C no Estado, e a combinação com umidade crítica é o que preocupa tanto a saúde pública quanto os bombeiros.
O que esperar até domingo
A previsão separa o Estado em duas metades distintas nos próximos dias.
Entre esta quinta-feira (6) e domingo (9), as regiões norte, nordeste e Bolsão devem ter tempo firme, sol e umidade baixa, com índices variando entre 15% e 30%. É a faixa que concentra o alerta.
Já as regiões oeste, sudoeste, sul e sudeste têm previsão de chuva no mesmo período — o que alivia parte do Estado, mas não a que está sob aviso.
Para efeito de comparação: a Organização Mundial da Saúde considera 60% o índice ideal de umidade relativa. Aos 12%, o ar do Bolsão fica em torno de um quinto desse valor.
Por que 12% de umidade é um problema de saúde
O ar muito seco age primeiro nas mucosas — nariz, garganta, olhos. Elas ressecam, perdem a capacidade de filtrar e ficam mais suscetíveis a irritação e infecção.
Os efeitos mais comuns nesse patamar:
- sangramento nasal, sobretudo em crianças
- garganta seca e tosse irritativa persistente
- crises em quem tem asma, rinite ou bronquite
- olhos ardendo e vermelhos, com desconforto para quem usa lente de contato
- pele rachada e lábios feridos
- dor de cabeça e cansaço por desidratação silenciosa, já que se perde água pela respiração sem sentir sede proporcional
Crianças pequenas, idosos e pessoas com doença respiratória crônica sentem antes e mais forte. Este texto é informativo — sintoma persistente pede avaliação de profissional de saúde.
O que fazer nos próximos dias
As recomendações são simples e funcionam melhor combinadas do que isoladas.
Hidratação. Beba água mesmo sem sede, ao longo do dia, e não só no almoço. Sopas, frutas com alto teor de água e sucos naturais ajudam. Álcool e bebidas muito açucaradas trabalham contra.
Umidificação do ambiente. Bacia com água nos cômodos, toalha molhada estendida, roupa lavada secando dentro de casa. Umidificador, se houver, com água limpa trocada diariamente — reservatório sujo vira fonte de contaminação.
Soro fisiológico. Lavagem nasal e colírio lubrificante fazem mais diferença nesse clima do que a maioria das pessoas imagina.
Horário. Evite exercício físico e trabalho pesado ao ar livre entre 10h e 16h, janela em que a umidade despenca e a temperatura sobe.
Ambiente fechado. Evite varrer a seco — o pó fica suspenso no ar. Pano úmido resolve melhor.
Quem trabalha exposto ao sol tem direito a pausas, sombra e água disponível. Vale cobrar.
O outro lado do ar seco: o fogo
A umidade crítica chega num ano em que o Pantanal sul-mato-grossense já acumula um resultado ruim.
Entre 1º de janeiro e 15 de julho de 2026, o bioma registrou 58.878 hectares queimados, contra 6.762 hectares no mesmo intervalo de 2025 — alta de 770,7%. Os focos de calor passaram de 69 para 149, aumento de 115,9%.
O Corpo de Bombeiros Militar informa que atua no bioma desde o começo do ano e que 402 bombeiros militares já foram empregados em ações de prevenção, preparação e combate a incêndios florestais no período.
A previsão climática do Cemtec para o trimestre de agosto a outubro indica temperaturas acima da média histórica e episódios de calor intenso. Há tendência de chuva um pouco acima da média ao longo do trimestre, mas agosto e boa parte de setembro devem seguir secos — mantendo condições favoráveis ao fogo.
É a tríade conhecida de quem vive no interior: calor forte, vento e umidade baixíssima. Com ela, uma ignição pequena vira incêndio grande em minutos.
O que não fazer
A maior parte dos incêndios em vegetação nesta época tem origem humana, e quase sempre em atos que quem os pratica não considera perigosos.
- Não jogue bituca pela janela do carro. Na beira de estrada com vegetação seca, é ignição quase certa.
- Não queime lixo ou resto de poda no quintal. Ainda que o vento pareça calmo na hora em que você acende.
- Queima controlada está suspensa em todo o Estado até 30 de novembro, com prazo estendido no Pantanal até dezembro.
- Cuidado com balão. Soltar balão é crime ambiental previsto na Lei 9.605/1998, com pena de detenção.
- Atenção a vidro e material refletivo em terreno com mato alto.
Ao avistar fogo em vegetação, acione 193 (Corpo de Bombeiros). Informe ponto de referência, se há moradias próximas e a direção do vento — esse último dado, que quase ninguém lembra de dar, muda a estratégia da equipe.
Quem cuida da casa e da lavoura
Produtores rurais e moradores de área de transição têm algumas medidas que reduzem risco antes que o problema chegue:
- manter aceiros limpos e com largura adequada ao redor de construções e cercas
- roçar vegetação seca próxima a benfeitorias
- guardar combustível e botijão longe de material inflamável e de exposição direta ao sol
- manter bomba, mangueira e caixa d'água em condição de uso
- combinar com vizinhos um plano simples de comunicação — quem avisa quem, por qual canal
O padrão dos últimos anos no Estado é claro: o pior do fogo não acontece por falta de combate, mas por acúmulo de dias secos somado a uma ignição evitável. Os próximos quatro dias são exatamente esse tipo de janela.