O telefone toca. Do outro lado, alguém se apresenta como servidor da Agência de Habitação Popular de Mato Grosso do Sul e dá a notícia que a família esperava há anos: você foi selecionado para receber uma unidade habitacional. Em seguida vem a condição. Para garantir o benefício, é preciso pagar uma taxa.
A Agehab-MS emitiu alerta público sobre exatamente esse roteiro. E a orientação da agência é direta: qualquer contato nesse padrão é golpe.
O que a agência diz
A Agehab frisa que não realiza nenhum tipo de cobrança de taxa para seleção ou concessão de unidades habitacionais. Não existe valor de análise, de inscrição, de reserva, de liberação nem de qualquer outro nome que o interlocutor invente.
A agência acrescenta um segundo ponto, tão importante quanto o primeiro: contemplações de moradia não acontecem fora dos processos oficiais de seleção, que envolvem até publicação em Diário Oficial. Ou seja, ninguém é escolhido por telefonema. O caminho é público, documentado e rastreável.
Segundo a Agehab, medidas cabíveis já foram adotadas diante das ocorrências das quais o órgão tomou conhecimento, e a situação também está sendo apurada internamente.
Por que as cidades do interior são alvo preferencial
O golpe funciona porque encontra um terreno preparado. Programas habitacionais têm filas longas, e é comum uma família ficar anos aguardando sem saber em que etapa está. Quando alguém liga dizendo que a espera acabou, a notícia é boa demais para ser checada com calma.
Esse desequilíbrio é maior nos municípios menores, onde a unidade de atendimento presencial fica distante, o horário é limitado e a checagem exige deslocamento. O golpista se aproveita da distância entre o cidadão e a informação oficial.
Há ainda um agravante de calendário. Quando um empreendimento habitacional entra em fase de entrega em alguma cidade do estado, o assunto circula em grupo de WhatsApp e rádio local, e a menção genérica a "as casas vão sair" cria o contexto perfeito para uma ligação falsa parecer verossímil.
As quatro regras que resolvem
A orientação da Agehab pode ser reduzida a um procedimento simples.
- Não pague nada. Nenhuma taxa, em nenhuma modalidade, para nenhum programa habitacional do estado.
- Não forneça dados. Nada de CPF, senhas, códigos recebidos por SMS ou dados bancários para quem ligou dizendo ser da agência.
- Desligue e confirme por fora. Procure os canais oficiais para verificar a veracidade da informação. A Agehab mantém atendimento pelo telefone (67) 3348-4168 e a sede fica na Rua Soldado PM Reinaldo de Andrade, 108, bairro Tiradentes, em Campo Grande.
- Registre. A agência orienta que, sempre que possível, sejam feitos registros policiais das abordagens.
A regra número três é a que quebra o golpe. Todo esquema desse tipo depende de manter a vítima dentro da mesma ligação, sob pressão de tempo. Encerrar a chamada e ligar para o número oficial, obtido por conta própria e não repassado pelo interlocutor, derruba o esquema inteiro.
Como a seleção realmente funciona
Para conferir se o contato faz sentido, ajuda saber como o processo legítimo se comporta.
A Agehab estrutura sua atuação em diretorias específicas, entre elas a de Planejamento e Fomento Habitacional e a de Gestão de Empreendimentos e de Regularização Fundiária, e mantém no próprio site a área de consultas de editais, além de guias e manuais. Os órgãos colegiados incluem o Conselho Estadual das Cidades de Mato Grosso do Sul e o Conselho Gestor do Fundo de Habitação de Interesse Social.
O que isso significa na prática para quem está na fila: seleção habitacional é procedimento administrativo. Tem edital, tem critério, tem prazo e tem publicação oficial. Um processo com essas características não se comunica com o beneficiário por ligação surpresa pedindo pagamento imediato.
Quando surgir a dúvida, a pergunta a fazer é sempre a mesma: em qual edital isso está publicado? Um servidor de verdade responde. Um golpista muda de assunto ou pressiona.
Outro sinal confiável é o canal. Processo habitacional se comunica por publicação oficial, por lista afixada e, quando é o caso, por convocação formal. Não se comunica por aplicativo de mensagem com foto de crachá, nem por perfil de rede social criado há duas semanas. Se o contato veio por um canal que você não consegue rastrear até o órgão, ele não serve como prova de nada.
Vale também combinar isso em casa. Os alvos preferenciais desse tipo de abordagem costumam ser pessoas idosas e famílias que estão em lista de espera há muito tempo, ou seja, exatamente quem tem mais motivo para acreditar na ligação. Avisar um parente antes de o telefone tocar vale mais do que qualquer explicação depois.
Se você já pagou
A orientação para quem já transferiu dinheiro ou entregou dados segue três passos.
Primeiro, registrar boletim de ocorrência com todos os elementos que tiver: número que ligou, horário, valor, comprovante e chave usada na transferência.
Segundo, comunicar imediatamente o banco. Transferências instantâneas contam com mecanismos de contestação que dependem de rapidez.
Terceiro, avisar a Agehab pelos canais oficiais. O relato ajuda a agência a dimensionar a ocorrência e a alertar outras famílias que estejam recebendo o mesmo tipo de contato.
Um alerta que vale além da habitação
O roteiro é sempre o mesmo, mude o nome do órgão. Alguém liga com uma boa notícia inesperada, cria urgência e pede um pagamento pequeno para destravar um benefício grande. Já apareceu com nome de benefício social, de restituição de imposto, de prêmio e agora de casa própria.
A defesa também é sempre a mesma. Órgão público não cobra taxa por telefone, não pede senha e não escolhe beneficiário fora de processo publicado. Quando o contato foge desse padrão, não é exceção. É golpe.