Uma expedição científica varreu o planalto de Lisima, no leste de Angola, em fevereiro de 2025. O resultado foi dezenas de espécies que podem ser novas para a ciência. O achado mais chamativo? Uma aranha-caranguejo que brilha em azul quando exposta à luz ultravioleta.
A região é um dos últimos grandes pontos cegos de biodiversidade da África. Ficou isolada por 27 anos por causa da guerra civil angolana, encerrada em 2002. Esse isolamento permitiu que ecossistemas únicos ficassem praticamente intocados pela ciência moderna. Leia também: Mudança de cidade: guia completo para se organizar sem dor de cabeça — afinal, se mudar para um lugar tão remoto exige planejamento.
Quem liderou a expedição foi Steve Boyes e Rob Taylor, do The Wilderness Project. Uma equipe de 16 especialistas, entre africanos e internacionais, enfrentou condições logísticas extremas para chegar ao planalto. “Do ponto de vista logístico, foi extremamente difícil. Mais de uma vez, nosso comboio ficou atolado na lama por um dia inteiro”, conta Boyes. Mesmo com os atrasos, os cientistas não perderam tempo: aproveitavam cada parada forçada para examinar os dambos — florestas pantanosas e zonas úmidas que pontuam a paisagem. O resultado foi um conjunto impressionante de descobertas que podem levar meses ou anos para serem formalmente descritas e publicadas. Leia também: PT e Haddad usam obras de SP na TV após embates com Tarcísio: a guerra de narrativas eleitorais — enquanto isso, o mundo político também vive suas próprias expedições.
A expedição ao planalto Lisima
O planalto de Lisima, nas terras altas de Angola, é uma paisagem vasta que alimenta as nascentes de quatro dos maiores rios da África: Congo, Okavango, Zambeze e Cuanza. A geografia remota e o longo período de guerra civil dificultaram a exploração científica, transformando a área em um dos últimos grandes pontos cegos de biodiversidade do continente.
A expedição de 2025 fez parte do The Wilderness Project. Em 2024, a mesma equipe já tinha capturado em vídeo um “elefante fantasma” — uma linhagem distinta de elefante que vive nas florestas pantanosas do planalto. O objetivo principal do levantamento atual era catalogar a biodiversidade local.
“Os cientistas não se deixaram abalar muito pelos atrasos — sempre que ficávamos presos em algum lugar, eles aproveitavam a oportunidade para examinar os dambos, florestas pantanosas e zonas úmidas próximas”, explica Taylor. Essa abordagem garantiu que a equipe cobrisse uma área muito maior do que o planejado inicialmente.
Descobertas surpreendentes: aranha fluorescente azul
Entre as descobertas mais impressionantes está uma aranha-caranguejo coroada que brilha em azul intenso quando exposta à luz ultravioleta. Fluorescência azul é um fenômeno raro em aranhas.
Pesquisadores acreditam que a bioluminescência pode ter funções específicas, como atrair presas noturnas ou servir como forma de comunicação entre indivíduos da mesma espécie.
Além da aranha fluorescente, a equipe também encontrou uma aranha tecelã de joaninha, que se camufla perfeitamente entre as folhas secas. Registraram ainda espécies conhecidas, como a víbora-gabão — cujas presas podem atingir até 5 centímetros de comprimento —, a mosca-morcego e a mariposa-de-muitas-plumas.
Outras novas espécies
O levantamento também revelou:
- 8 libélulas e libelinhas (odonatas) potencialmente novas — das 103 espécies registradas na região, 8 são desconhecidas pela ciência.
- 8 mariposas não descritas, incluindo uma com padrões de asas que imitam folhas secas.
- 3 espécies de gafanhotos, esperanças e grilos (ortópteros) que ainda não foram catalogadas.
Essas descobertas reforçam o status do planalto de Lisima como um refúgio de biodiversidade, onde espécies evoluíram isoladas por milênios. Leia também: Esposa de motoboy atropelado por Porsche revive drama em audiência: 'um filme' — enquanto a natureza se protege, a vida real também tem seus dramas.
Importância da zona úmida Ramsar em Angola
Em outubro de 2025, a Convenção de Ramsar nomeou o planalto de Lisima como zona úmida de importância internacional, reconhecendo 5,4 milhões de hectares (13,3 milhões de acres) da região. O ecossistema circundante, que abrange cerca de 110.000 km² (42.500 milhas quadradas), é sustentado pelas águas subterrâneas que emergem no planalto.
Essas zonas úmidas são habitat crítico para aves migratórias, espécies endêmicas de anfíbios e répteis, e servem como berçário natural para peixes que alimentam comunidades ribeirinhas.
“A longo prazo, esperamos que as conclusões do levantamento apoiem uma proteção mais robusta para o planalto — não apenas em termos de estatuto formal de conservação, mas também em decisões práticas de uso da terra no terreno”, afirma Boyes.
Biodiversidade de Angola após a guerra civil
A guerra civil angolana (1975-2002) dificultou a exploração científica. Durante 27 anos, grande parte do território ficou inacessível para pesquisadores.
Paradoxalmente, o isolamento também protegeu áreas remotas como o planalto de Lisima. Sem pressão de caça comercial, mineração em larga escala ou agricultura intensiva, os ecossistemas locais mantiveram sua integridade.
“O objetivo não é simplesmente documentar novas espécies, mas garantir que os habitats dos quais elas dependem permaneçam intactos”, reforça Taylor.
O papel do The Wilderness Project
O The Wilderness Project é uma organização não governamental focada em exploração e conservação de áreas selvagens pouco conhecidas. Liderado por Steve Boyes, que também comanda o National Geographic Okavango Wilderness Project, o grupo realiza expedições científicas em regiões remotas da África e América do Sul.
As expedições ao planalto de Lisima são um exemplo desse modelo. Além de catalogar espécies, os cientistas monitoram a qualidade da água, mapeiam áreas de desmatamento e documentam conhecimentos tradicionais das comunidades locais.
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Perguntas frequentes
Quantas novas espécies foram descobertas em Angola em 2025? A expedição de fevereiro de 2025 encontrou dezenas de espécies potencialmente novas para a ciência, incluindo 8 libélulas/libelinhas, 8 mariposas, 3 gafanhotos/grilos, além de uma aranha fluorescente azul. Os resultados ainda estão sendo analisados e podem levar meses ou anos para serem formalmente publicados.
Por que a aranha fluorescente azul é importante? É um registro raro de fluorescência azul em aranhas. O fenômeno é raro e pode revelar novas funções biológicas, como atração de presas ou comunicação. A descoberta também destaca a biodiversidade única e pouco estudada do planalto de Lisima.
Onde fica o planalto Lisima? O planalto de Lisima está localizado no leste de Angola, nas terras altas do país. A região alimenta as nascentes dos rios Congo, Okavango, Zambeze e Cuanza, sendo um dos mais importantes aquíferos da África.
Como a guerra civil afetou a biodiversidade de Angola? A guerra civil de 27 anos (1975-2002) praticamente paralisou a pesquisa científica e a exploração de recursos naturais. Por um lado, o isolamento protegeu áreas remotas como o planalto de Lisima da exploração intensiva. Por outro, dificultou o monitoramento e a conservação, deixando o país com lacunas enormes no conhecimento de sua biodiversidade.
O que é o The Wilderness Project? É uma ONG liderada por Steve Boyes e Rob Taylor, focada em explorar e conservar áreas selvagens pouco conhecidas. O projeto realiza expedições científicas multidisciplinares, treina pesquisadores locais e fornece dados para subsidiar políticas de conservação. Também está ligado ao National Geographic Okavango Wilderness Project.