Quem mora no interior de Mato Grosso do Sul já reparou: em muitas cidades, alguma rua está aberta. Tapume, cone laranja, tubo de concreto empilhado na esquina, desvio no trajeto de sempre. É incômodo, é barulhento, e na maioria dos casos é esgoto.
O estado tem hoje intervenções simultâneas de saneamento em 49 municípios, e a razão desse ritmo tem nome e data: o marco legal do saneamento estabeleceu a universalização do serviço como meta nacional para 2033.
O que já existe e o que falta
Os dois indicadores contam histórias diferentes.
O abastecimento de água tratada está universalizado nas 68 cidades atendidas pela Sanesul, a companhia estadual. Essa parte da conta está fechada.
O esgoto está em 75,15% de cobertura. É um índice muito acima da média brasileira, e ao mesmo tempo é a fatia que sobra, que costuma ser a mais cara e a mais difícil: bairros afastados, áreas de expansão recente, distritos, terrenos com relevo complicado.
A diferença entre os dois números explica por que a obra que aparece na sua rua quase sempre é de esgoto e não de água.
O mapa das frentes
As intervenções em andamento se dividem assim:
- 36 obras de ampliação de esgotamento sanitário
- 13 frentes de abastecimento de água tratada
- 17 contratos em execução para sistemas de água em 13 municípios
A execução acontece por dois caminhos. Parte é tocada diretamente pela Sanesul. Outra parte corre por meio da parceria público-privada com a Ambiental MS Pantanal, que responde por 26 cidades.
Essa divisão importa para o morador por uma razão prática: quando surge um problema, a ouvidoria que resolve depende de quem opera o serviço na sua cidade. Vale conferir na conta de água qual é o operador antes de reclamar no lugar errado.
"Cada obra entregue representa mais saúde, preservação ambiental e qualidade de vida para a população", afirmou Renato Marcílio, diretor-presidente da Sanesul, ao comentar o andamento das frentes. "Investir em água e esgoto é investir em dignidade, desenvolvimento e futuro."
O Novo PAC no Cone Sul
Além das obras da companhia estadual, há um segundo pacote correndo em paralelo, com recursos do Novo PAC, voltado a sete cidades da região do Cone Sul, onde fica Naviraí.
Entre as intervenções em execução na região aparecem complexo esportivo, creche, ampliação de esgoto, construção de Unidade Básica de Saúde, além da concessão em regime de parceria público-privada e os estudos correspondentes.
Outras cinco frentes estão em fase de licitação: ampliação do sistema de abastecimento de água, estudo e projeto de regularização fundiária, escola em tempo integral, CEU da Cultura e um kit de equipamentos para teleconsulta.
Esse último item merece atenção porque costuma passar em branco nas listas: equipamento de teleconsulta em município pequeno é o que permite que um exame seja avaliado por especialista sem que o paciente precise pegar estrada até Dourados ou Campo Grande.
Por que isso muda a vida na cidade, e não só a rua
Obra de saneamento tem uma característica ingrata: o transtorno é imediato e visível, e o benefício é lento e invisível.
O efeito mais direto é sobre a saúde. Esgoto coletado e tratado reduz a circulação de doenças de veiculação hídrica, aquelas que enchem a fila da UBS com diarreia, verminose e infecções de pele, principalmente em crianças e principalmente no verão.
O segundo efeito é ambiental. Em cidades de MS, o esgoto não coletado costuma terminar em córregos urbanos que deságuam nas bacias do Paraná e do Paraguai. É o mesmo sistema hídrico que sustenta o Pantanal, o turismo de Bonito e a pesca.
O terceiro é econômico, e é o menos comentado. Índice de saneamento entra nos cálculos de financiamento habitacional, de licenciamento de loteamentos e de instalação de indústrias. Cidade com cobertura baixa perde projeto para a vizinha sem que ninguém escreva isso em documento oficial.
O que vem junto na conta
Vale ser honesto sobre o outro lado. Ampliação de rede costuma vir acompanhada de dois efeitos no bolso do morador.
O primeiro é a tarifa de esgoto, cobrada quando o imóvel passa a ser atendido pela rede, normalmente como percentual sobre o consumo de água. Quem nunca teve coleta vai ver a conta subir.
O segundo é a ligação interna. A rede chega até a via pública, mas conectar o imóvel à rede é responsabilidade do proprietário, e há municípios com prazo definido para essa conexão depois que a rede fica disponível.
Nenhum dos dois é surpresa se você souber antes. Os dois viram dor de cabeça se você descobrir pela notificação.
Como acompanhar a obra da sua cidade
Algumas providências simples resolvem a maior parte das dúvidas:
- Descubra quem opera o serviço na sua cidade, olhando a conta de água, e use a ouvidoria correta.
- Pergunte o cronograma na secretaria de obras da prefeitura. A informação sobre trecho, prazo e desvio costuma existir e raramente é divulgada de forma ativa.
- Guarde o número do protocolo de qualquer reclamação sobre buraco mal fechado, calçada danificada ou vazamento. Sem protocolo, o pedido some.
- Acompanhe a Câmara de Vereadores da sua cidade. Contratos de saneamento e prazos de ligação obrigatória passam por lá, e é onde dá para reclamar antes de a regra valer.
Até 2033 faltam sete anos. Para quem mora em rua aberta, a obra parece eterna. No calendário do saneamento brasileiro, é prazo apertado.