Cidades News
Notícias

Rios voadores: o que são, por que colocam MS em alerta e o que eles têm a ver com a sua conta de luz

Rios voadores: o que são, por que colocam MS em alerta e o que eles têm a ver com a sua conta de luz

De vez em quando o termo aparece num alerta meteorológico e deixa todo mundo confuso: rios voadores. Soa a licença poética — e é, em parte. Mas por trás da metáfora existe um fenômeno atmosférico bem descrito, medido por satélite e por avião de pesquisa, e do qual depende boa parte da chuva que cai em Mato Grosso do Sul.

Reunimos abaixo as dúvidas mais comuns sobre o assunto.

O que são os rios voadores?

São correntes de ar carregadas de vapor d'água que se deslocam na baixa atmosfera. O nome técnico é jatos de baixos níveis — e eles circulam na troposfera inferior, aproximadamente entre 1.500 e 3.000 metros de altitude.

"Rio voador" é a metáfora que os próprios cientistas adotaram para explicar a escala da coisa ao público: o volume de água que circula por essas correntes é comparável ao de grandes rios. Só que em vez de correr entre margens, corre pelo ar, invisível, a dois quilômetros de altura sobre a sua cabeça.

De onde vem essa água?

Da Amazônia, principalmente.

O processo tem duas etapas. Primeiro, a umidade chega do Atlântico e entra pela floresta. Depois — e esta é a parte que faz a diferença — a própria floresta devolve água à atmosfera. Cada árvore puxa água do solo pelas raízes e libera vapor pelas folhas, num processo chamado evapotranspiração. Multiplique isso por bilhões de árvores e você tem uma bomba de umidade operando em escala continental.

É essa umidade reciclada que abastece os rios voadores.

Por que essa água vem parar em Mato Grosso do Sul?

Por causa dos Andes.

A corrente úmida se desloca da Amazônia em direção a oeste. Ao encontrar a cordilheira, esbarra num paredão de milhares de metros que ela não consegue transpor. Sem passagem, a massa de ar faz uma curva para o sul.

Essa curva é o que joga a umidade amazônica sobre o Centro-Oeste, o Sudeste e o Sul do Brasil. Mato Grosso do Sul está bem no caminho.

Ou seja: a chuva que molha Campo Grande, Dourados ou Três Lagoas passou, em boa medida, por cima da floresta antes de chegar aqui. Não é força de expressão — é trajetória.

Então a chuva de MS depende da Amazônia?

Em parte relevante, sim. Uma fração significativa da água que abastece reservatórios, lavouras e cidades do Centro-Oeste, do Sudeste e do Sul chega por essa circulação atmosférica.

É aí que o assunto deixa de ser curiosidade científica e vira economia. Um estado como Mato Grosso do Sul, cujo PIB depende de soja, milho, cana e pecuária, depende de chuva na hora certa. E chuva na hora certa, aqui, tem endereço de origem a milhares de quilômetros de distância.

E a conta de luz, o que tem a ver?

Tudo. A matriz elétrica brasileira ainda é fortemente hidrelétrica, e hidrelétrica funciona com reservatório cheio.

Quando a circulação de umidade falha, o reservatório baixa. Quando o reservatório baixa, entra térmica. Quando entra térmica, acende bandeira tarifária e a conta sobe — para todo mundo, inclusive para quem mora a três mil quilômetros da floresta e nunca pensou no assunto.

A ligação entre desmatamento e tarifa de energia não é slogan de ONG. É a mesma corrente de ar, medida pelos mesmos instrumentos.

Por que os rios voadores aparecem em alertas de vendaval?

Porque essas correntes não trazem só água — trazem energia.

Quando um jato de baixos níveis carregado de umidade encontra uma frente fria vinda do sul, o encontro pode organizar tempestades severas, com rajadas fortes, granizo e chuva concentrada em pouco tempo. É por isso que o mesmo fenômeno que garante a safra também aparece em boletim de alerta com previsão de vento forte para cidades como Corumbá, Dourados e Três Lagoas.

O rio voador, nesse sentido, é uma boa notícia com uma letra miúda. Ele é o que faz chover — e, em determinadas configurações, o que faz chover demais e de uma vez só.

O que ameaça o fenômeno?

O desmatamento, direta e mecanicamente.

Se a bomba de umidade é a floresta em pé, menos floresta significa menos evapotranspiração, e menos evapotranspiração significa uma corrente mais fraca chegando ao Centro-Oeste. Não é uma hipótese distante: é a consequência aritmética de remover as árvores que fazem o bombeamento.

A discussão sobre ponto de não retorno da Amazônia gira em torno exatamente disso — a partir de que percentual de perda a floresta deixa de conseguir reciclar a própria umidade e passa a secar sozinha, num ciclo que se retroalimenta.

Para quem vive em Mato Grosso do Sul, o recado é desconfortável e simples: preservar a Amazônia não é um favor que o Centro-Oeste faz ao Norte. É manutenção da própria chuva.

Como acompanhar o fenômeno?

O monitoramento no Brasil é feito principalmente pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que estuda a circulação de umidade e a interação entre a floresta e a atmosfera. Alertas de tempo severo para os municípios sul-mato-grossenses são emitidos pelos órgãos oficiais de meteorologia e retransmitidos pelas Defesas Civis municipais.

Na prática, o morador não precisa acompanhar o rio voador. Precisa acompanhar o alerta que ele produz — e, quando a previsão indicar vento acima de 60 km/h, tratar isso com a seriedade que a estatística recomenda: recolher o que voa, evitar árvore e estrutura metálica, e desligar aparelho da tomada.

O resto do trabalho a floresta faz sozinha. Enquanto puder.

Leia também

Receba as novidades de Cidades News

As melhores publicações direto no seu e-mail. Sem spam.